segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Monsanto censura e difama pesquisas contrárias ao seu milho transgênico

Por Silvia Ribeiro
La Jornada, Mexico,  Traduçao Adital
 
Em 2012, uma equipe científica liderada por Gilles-Éric Séralini publicou um artigo mostrando que ratos de laboratório alimentadas com milho transgênico da Monsanto durante toda a sua vida desenvolveram câncer em 60-70% (contra 20-30% em um grupo de controle), além de problemas hepático-renais e morte prematura. 
 
Agora, a revista que publicou o artigo se retratou, em outra amostra vergonhosa de corrupção nos âmbitos científicos, já que as razões apresentadas não são aplicadas a estudos similares da Monsanto. O editor admite que o artigo de Séralini é sério e não apresenta incorreções; porém, os resultados não são conclusivos, algo característico de uma grande quantidade de artigos e é parte do processo de discussão científica.
 
A retratação aconteceu após a revista ter contratado Richard Goodman, ex-funcionário da Monsanto, como editor especial. É o corolário de uma agressiva campanha de ataque contra o trabalho de Séralini, orquestrado pelas transnacionais. O caso recorda a perseguição sofrida por Ignacio Chapela, quando publicou na revista Nature que havia contaminação transgênica no milho camponês de Oaxaca.
 
Em outro contexto, mas sobre o mesmo tempo, Randy Schekman, que recebeou o Nobel de Medicina 2013, ao receber o prêmio chamou a boicotar as publicações científicas, "como Nature, Science e Cell” (e poderia ter incluído a que agora retratou a Séralini) pelo dano que estão causando à ciência, ao estar mais interessados em impactos midiáticos e lucros do que na qualidade dos artigos.
 
Schekman assegurou que nunca mais publicará nessa revista e chamou a publicar em revistas de acesso aberto, com processos transparentes. Soma-se a outras denúncias sobre a relação incestuosa das indústrias com esse tipo de revista, para conseguir a autorização de produtos através de publicar artigos científicos.
 
O estudo de Séralini é muito relevante para o México porque os ratos foram alimentados com milho 603 da Monsanto, o mesmo que as transnacionais solicitam plantar em mais de um milhão de hectares, no norte do país.
 
Caso seja aprovado, esse milho entraria massivamente na alimentação diária das grandes cidades do país, cujas ‘tortillerías’ (que fabricam tortilhas, feitas por milho), se abastecem principalmente nesses Estados.
 
Como o México é o país onde o consumo humano direto de milho é o mais alto do mundo e durante toda a vida, o país se converteria em uma repetição do experimento de Séralini, com gente em vez de ratos, com altas probabilidades de desenvolver câncer em alguns anos, em um lapso de tempo suficiente para que o governo tenha mudado e as empresas neguem sua responsabilidade, alegando que foi há muito tempo e não se pode demonstrar o milho transgênico como causa direta.
 
O artigo de Séralini foi publicado na revista Food and Chemical Toxicology após uma revisão de meses por outros cientistas. À horas de sua publicação e em forma totalmente anticientífica (não podiam avaliar os dados com seriedade nesse tempo) cientistas próximos à indústria biotecnológica começaram a repetir críticas parciais e inexatas, curiosamente iguais, já que provinham de um tal Centro de Meios de Ciência, financiado pela Monsanto, pela Syngente, pela Bayer e por outras multinacionais.
 
Para retratar o artigo, agora se alega que o número de ratos do grupo de controle foi muito baixo e que os ratos Sprague-Dawley usadas na experimentação têm tendência a tumores. Omitem dizer que a Monsanto usou exatamente o mesmo tipo e a mesma quantidade de ratos de controle em uma experimentação publicada em sua revista, em 2004; porém, somente por 90 dias, reportando que não havia problemas, conseguindo a aprovação do milho Monsanto 603.
 
Séralini prolongou a mesma experimentação e a ampliou, durante toda a vida dos ratos e os problemas começaram a aparecer a partir do quarto mês. Fica claro que a revista aplica duplo padrão: um para a Monsanto e outro para os que mostram resultados críticos.
 
A equipe de Séralini explicou que o número de ratos usados é padrão em OCDE em experimentos de toxicologia; mas para os estudos de câncer são utilizados mais. Porém, seu estudo não buscava câncer, mas possíveis efeitos tóxicos, o que ficou amplamente provado.
 
O maior número de ratos em estudos de câncer é para descartar falsos negativos (que haja câncer e não se veja); porém, nesse caso, a presença de tumores foi tão grande que, inclusive, para essa avaliação seria suficiente. Desde o início, sua equipe também assinalou que mais estudos específicos de câncer devem ser feitos.
 
Em âmbito global, há vários comunicados assinados por centenas de cientistas defendendo o estudo de Séralini; porém, no México, a Cibiogem (Comissão de Biossegurança), fazendo jus à sua falta de objetividade e compromisso com a saúde da população, publica somente o lado da controvérsia que favorece às transnacionais, ignorando as respostas de inúmeros cientistas independentes.
 
Isso é mais preocupante já que o governo afirma que a liberação do milho transgênico no México será decidido por critérios científicos. No entanto, consulta somente cientistas como Francisco Bolívar Zapata, Luis Herrera Estrella, Peter Raven e outros que têm conflitos de interesse devido à sua relação com a indústria biotecnológica.
 
O tema do milho no México excede os aspectos científicos; porém, qualquer consulta deve ser aberta e com cientistas que não tenham conflitos de interesse. Por exemplo, levar em consideração os documentos da Unión de Científicos Comprometidos con la Sociedad, apoiados por mais de 3 mil cientistas em âmbito mundial.
 
 
Silvia Ribeiro, Grupo ETC, www.etcgroup.org
[Publicado originalmente em espanhol em La Jornada]

Balanço dos conflitos agrários no Estado do Maranhão em 2013

Diogo Cabral*

O processo de modernização da agricultura brasileira - conservador, parcial, excludente e ecologicamente insustentável - acelerou a exclusão social e a degradação ambiental no campo maranhense. Este processo é caracterizado pela apropriação fraudulenta da terra, êxodo rural e violentos conflitos sociais no campo. A reprimarização da economia, que privilegia a produção de commodities agrícolas e minerais para o mercado externo tem consequências mortais para o campesinato maranhense, que se materializam no aumento exponencial da violência (assassinatos, ameaças de morte, despejos forçados), êxodo rural, desemprego e trabalho escravo.

Em 2013, o Maranhão se manteve na dianteira nacional em conflitos agrários. O quadro deste drama social pode ser representado pelos 3 assassinatos, ocorridos no P.A Capoema (Bom Jesus das Selvas), P.A Sit ( Santa Luzia) e P.A Santa Maria II ( Satubinha), o crescente número de ameaçados de morte, incluindo vários dirigentes sindicais, prisão ilegal de trabalhador rural, na comunidade Livramento (Codó), forte atuação de milícias armadas em Santa Maria dos Moreiras (Codó), Cipó Cortado (João Lisboa), Arame e Campo do Bandeira (Alto Alegre do Maranhão), Tiúba (Chapadinha) e de pistoleiros, em Baturité (Chapadinha), Vergel (Codó), Quilombo São Pedro (São Luís Gonzaga), Quilombos Salgado e Pontes (Pirapemas), Vilela (Junco do Maranhão). 

Verificou-se também a ação direta de agentes públicos atuando como verdadeiros jagunços, atormentando a paz e tranquilidade de várias comunidades maranhenses. Podemos destacar policiais militares de Codó, comandados pelo oficial Moura, que realizaram prisão e intimidações em comunidades tradicionais, a delegacia de Polícia Civil e policiais militares de Boa Vista do Gurupi, que realizam serviços para o grileiro de terras Nestor Osvaldo Finger, fatos estes oficiados à Delegacia Geral de Polícia Civil, em maio de 2013, por meio do Ofício Fetaema 99/2013, que não tomou nenhuma providência a fim de apurar as ilicitudes. Na comunidade Engenho, em São José de Ribamar, a tropa de choque da PM e jagunços, sob os comandos do secretário de estado Alberto Franco, despejaram e destruíram, sem ordem judicial, várias linhas de roças de centenas de famílias de pequenos agricultores.

A impunidade também foi cenário dos conflitos agrários em 2013, com especial destaque para a comunidade Vergel, em Codó, onde dois indiciados foram absolvidos pela prática de tentativa de homicídio contra lavradores e que até hoje, nunca foi instaurado inquérito policial para apurar a morte do lavrador Alfredo, ocorrida em agosto de 2007, fato este levado ao Ministério Público Estadual e Polícia Civil e no P.A Maracumé-Mesbla, onde uma liderança dos trabalhadores do campo sofreu três tentativas de homicídio, sem que até hoje tenha ocorrido julgamento. Talvez o fato mais grave que ocorreu em 2013, no que tange à impunidade, foi a decisão do magistrado Alexandre Lima, da Comarca de São João Batista, que, sem fundamento no direito brasileiro, remeteu o processo criminal que trata do brutal assassinato do líder quilombola da Comunidade Charco ,Flaviano Pinto Neto, para a justiça federal.

Também, várias foram as decisões provenientes do Poder Judiciário do Maranhão, determinando a expulsão de centenas de famílias de trabalhadores rurais de suas terras, repetindo um padrão histórico de violência contra o campesinato maranhense, com destaque para as liminares expedidas pelas Comarcas de São Mateus, que determinou o despejo de 3 comunidades de Alto Alegre ( Boa Hora, Arame e Campo do Bandeira), Pinheiro, que determinou duas em Pedro do Rosário (Imbiral e Boa Esperança), Senador La Rocque, que determinou vários despejos em Cipó Cortado, Codó, que concedeu 5 liminares contra as comunidades Três Irmãos, Santa Maria dos Moreiras e Livramento, Chapadinha, que concedeu 2 liminares contra trabalhadores de Baturite e Capão, além do juiz da Comarca de Bequimão, que determinou o despejo da comunidade quilombola Sibéira. Ademais, o próprio Tribunal de Justiça do Maranhão solapou direitos de comunidades tradicionais, em decisões que desterraram trabalhadores de Santa Maria dos Moreiras e Buriti Corrente, ambas em Codó.  Em dezembro, foi determinado pela Justiça de São Bento o despejo compulsório de 45 lavradores assentados da reforma agrária no P.A Dibom 1, em Palmerândia, que foi suspenso pelo desembargador Velten Pereira, após recurso de agravo de instrumento interposto pelas famílias.

Por oportuno, os governos federais e estaduais praticam verdadeira contrarreforma agrária, na marra. Até hoje, nenhum decreto presidencial que declara área de interesse social para fins de reforma agrária foi emitido para beneficiar áreas no Estado do Maranhão, apesar das centenas de processos administrativos represados no INCRA. Em relação às comunidades quilombolas, apesar das inúmeras violências praticadas contra este grupo étnico, os procedimentos de titulação se encontram paralisados, ao passo que o agronegócio avança sobre os territórios tradicionais. Quanto ao Estado do Maranhão, seu órgão de terras é completamente desaparelhado, com forte limitação de recursos humanos e técnicos, o que reflete a posição histórica dos governos estaduais, em promover o agrobusiness, em detrimento da agricultura familiar. Em decorrência desta morosidade histórica, dois igrejas foram derrubadas (Tiúba e Vergel), 40 casas derrubadas (Arame, Campo do Bandeira, Tiúba, Santa Quitéria, Vergel), centenas de hectares de roças destruídos e duas residências explodidas por dinamites, na comunidade Santa Rosa, em Urbano Santos.

Aos camponeses maranhenses, num processo de autoconsciência, somente cabe desafiar a ordem imposta pelo latifúndio escravocrata que persiste em querer ditar as relações sociais e de produção a ferro e fogo.
          
*assessor jurídico da CPT/MA e da FETAEMA

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Juiz revoga prisão de mandante de chacina em Marabá que vai a júri quase 29 anos após o crime

O fazendeiro Marlon Lopes Pidde, acusado de chefiar uma chacina na Fazenda Princesa, no município de Marabá, em setembro de 1985, onde 6 (seis) trabalhadores rurais foram torturados e posteriormente assassinados, vai a julgamento popular no dia 08 de maio de 2014, na capital Belém. Quase 29 anos depois, o juiz da 1ª Vara do Tribunal do Júri da Capital, definiu a data do julgamento, mas, no mesmo dia em que publicou a data, mandou colocar em liberdade o fazendeiro Marlon que se encontrava preso preventivamente.
 
Em Julho do ano corrente, o Fazendeiro Marlon Foi novamente preso, por ordem do Juiz da 1ª Vara do Tribunal do Júri da Capital, quando tentava tirar seu passaporte na Polícia Federal com o objetivo de se ausentar do Brasil. No mesmo dia em que o Juiz marca a data do julgamento do Fazendeiro, manda colocá-lo novamente em liberdade. Mais uma vez o mandante da chacina foi beneficiado pela morosidade da justiça paraense, primeiro, pelos 22 anos que o processo passou nas gavetas do fórum da comarca de Marabá; segundo, pelos 4 anos que o processo ficou emperrado no Tribunal de Justiça para o julgamento de um simples recurso;  terceiro, pelo processo ter permanecido quase um ano na 1ª Vara do Tribunal do Júri aguardando a definição da data do julgamento. Agora, beneficiado pela liberdade, mesmo que seja condenado no julgamento que ocorrerá em maio de 2014, dificilmente será preso novamente, pois, certamente, lhe será dado o direito de permanecer solto até que todos os recursos da possível condenação sejam julgados. Marlon e a impunidade agradecem!
 
A demora da justiça paraense já livrou da cadeia o gerente de Marlon, José de Sousa Gomes, que também é acusado de participar da chacina. Em 10 de julho de 2013, o mesmo juiz, determinou a extinção da punibilidade do gerente, em razão da prescrição, ou seja, a demora injustificada fez com que o crime prescrevesse, não podendo mais o réu responder pelos assassinatos pelos quais era acusado
 
O caso ficou conhecido a nível nacional e internacional, em razão da crueldade usada pelos assassinos, chefiados por Marlon, para matar as vítimas, conforme narram os autos do processo. Os seis trabalhadores foram sequestrados em suas casas, amarrados, torturados durante dois dias e assassinados com vários tiros. Depois de mortos, os corpos foram presos uns aos outros com cordas e amarrados a pedras no fundo do rio Itacaiunas. Os corpos só foram localizados mais de uma semana após o crime. O caso foi levado à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, onde tramita um processo contra o Estado brasileiro. Quase três décadas após o crime o caso vai a júri.
 
JUSTIÇA QUE TARDA É JUSTIÇA FALHA!
 
Comissão Pastoral da Terra – CPT diocese de Marabá
Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos – SPDDH
FETAGRI - Regional Sudeste do Pará
Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Marabá

Indígenas Guarani resistem à nova reintegração de posse no MS

Por Ruy Sposati
Do Cimi

A Justiça Federal concedeu mais uma reintegração de posse contra os Guarani Ñandeva do Tekoha Yvy Katu, localizado entre municípios de Japorã e Iguatemi, fronteira do Brasil com o Paraguai. No total, quatro decisões contrárias à permanência dos indígenas na área, declarada em 2005 como terra indígena, onde incidem 14 propriedades rurais.
O Tribunal Regional Federal a 3ª Região (TRF-3) recusou os agravos que pediam a suspensão das ações de despejo. Segundo informações da Polícia Federal, a reintegração poderá acontecer na próxima quarta-feira (18). Indígenas afirmam que resistirão com a própria vida à ação policial.

"A nossa decisão é lutar até morte pela nossa terra Yvy Katu. Nem depois de nossa morte vamos sair daqui", defende uma carta da comunidade, publicada nesta quinta-feira pelo Conselho do Aty Guasu.
Acampados há 60 dias nos 7,5 mil hectares que ainda permaneciam em posse de fazendeiros, de um total de 9, 4 mil identificados pela Fundação Nacional do Índio (Funai), a retomada é a maior ocupação de terras da história dos Guarani e Kaiowá do Mato Grosso do Sul.

Em nota pública, o Conselho Indigenista Missionário apontou para o "risco de genocídio iminente (...) do que poderá ser um dos maiores massacres da história contemporânea deste país", e cobrou um posicionamento da Presidência da República e o Ministério da Justiça. "Não é possível que o primeiro passo para a solução do problema seja a permissão do ministro da Justiça para que a Polícia Federal realize um genocídio em favor da elite agrária sul-mato-grossense."

Polícia


A liderança Leila Guarani relata a postura truculenda da Polícia Federal na notificação da reintegração da Fazenda Remanso, na última terça-feira (11). "Ele [PF] não foi assim pra entregar, 'lê aqui o papel que eu trouxe', pra avisar só. Ele chegou apontando arma, violento, com abuso", relembra. "Ficaram com arma apontada pra criança, pra mulher com criança no colo".

No total, a Justiça concedeu reintegração em favor de nove propriedades, das 14 que incidem sobre a terra indígena declarada. As fazendas e proprietários são Luiz Carlos Tormena, dono da Fazenda Chaparral; Flávio Pascoa Telles de Menezes, da Fazenda Remanso; Agropecuária Pedra Branca, pessoa jurídica proprietária da Fazenda São Jorge; e Itamar Varago, Márcia Ana da Cruz Varago, Irany Aparecida Varago, Ilmara Varago Assis, José de Assis, Ivagner José Varago e Aparecida Conceição Prando Varago, famílias proprietárias da Fazenda São José, Estância Varago, Sítio São João, Sítio São Pedro, Chácara São Luiz e Sítio Santo Antonio.

"Eles falam em 14 propriedades. Pra nós é só um Tekoha Yvy Katu. Só pro fazendeiro tem nome diferente, tem vários nomes. Pra nós é só um", explica Leila. "E nós vamos lutar até a última vida. Vamos derramar todo o nosso sangue. Estamos prontos pra morrer mesmo".

"Nós vamos permanencer. Se for pra guerra, nós tamos prontos pra morrer. Nós não vamos sair mais. Nós não vamos abandonar mais essa terra, que demorou tanto tempo pra conseguirmos de volta. Já estamos esperando há muitos muitos anos. Agora, nós já estamos aqui. Nós vamos morrer tudo aqui", conclui.

Verdade 12.528: a importância de apurar fatos obscuros da nossa história

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No último dia 19 de outubro, há pouco menos de dois meses, estreou no Cinesesc da rua Augusta, pela 37a Amostra Internacional de Cinema de São Paulo, o documentário Verdade 12.528, dirigido pela Paula Sacchetta e pelo Peu Robles. O filme conta algumas das piores atrocidades cometidas pela ditadura militar brasileira através de depoimentos de familiares de mortos e desaparecidos e também dos camponeses do Araguaia que conviveram com a guerrilha.


 
Vinda de uma família que tem como histórico a luta contra os desmandos da velha ditadura, Paula foi uma das idealizadoras da FEP, Frente de Esculacho Popular, que desde 2012 vem perturbando o silêncio dos obscuros torturadores, apontando seus crimes bem em frente às suas residências. Junto de Peu, os dois resolveram partir para outro campo, e gravaram este documentário que certamente fará parte da história recente do cinema nacional devido às suas histórias emocionantes e repletas de perguntas que ainda estão esperando, ansiosamente, algumas por muitas décadas, serem respondidas. No último final de semana, Paula e Peu receberam os prêmios de melhor filme escolhido pelo público e melhor filme escolhido pelo júri, no festival Cine MuBe Vitrine Independente, realizado em São Paulo.
 
Na entrevista abaixo, pudemos conversar com a dupla a respeito de diversos temas relacionados ao filme. Paula e Peu falaram sobre a criação da FEP, suas idéias em torno das questões que permeiam a Comissão da Verdade e a necessidade de se contar corretamente a história do passado, para que ela não se repita no presente. Além, é claro, de alguns gigantes pormenores presentes nas gravações, entrevistas e viagens que construíram o filme.
 
Correio da Cidadania: Partindo do princípio de que nunca fazemos nada que não tenha a ver com a gente, de onde surgiu esse projeto?


Peu: De onde surgiu, a gente normalmente recebe essa pergunta e é difícil responder, é complicado, porque isso vem lá de trás. Esse documentário tem muito do que a gente vivenciou, sabe? A gente percebe coisas de dez anos atrás, de outros processos pessoais nossos e que estão presentes no documentário. Mas no curto prazo, a gente participa da FEP, a Frente de Esculacho Popular, que faz e organiza os escrachos (contra ex-torturadores e colaboradores do regime militar). Em uma das reuniões da FEP surgiu o tema da Comissão da Verdade e percebemos que isso era pouco conhecido, que, se parássemos alguém na rua e perguntássemos o que era a comissão da verdade, muita gente não saberia responder e muito menos poderia dizer a importância dela, né. Então, eu pensei, “pô, vamos fazer um documentário de cinco minutos sobre a Comissão da Verdade”, com a idéia de viralizar e colocar na internet, divulgar, fazer uma função didática, ou seja, uma explicação de o quê é e o porquê da Comissão da Verdade. E também tinha a vontade de registrar os depoimentos dos familiares que estão aí militando e a gente queria registrar a partir do nosso olhar os depoimentos dessas pessoas que,em minha opinião, são pouco valorizados.
 
Paula: É mais ou menos assim mesmo. Primeiro conversamos sobre a nossa posição, a posição do nosso grupo sobre a Comissão da Verdade, se a gente apoiaria, apoiaria criticamente, e daí, em um determinado momento, pensamos que “nossa, estamos aqui discutindo a nossa posição sobre a Comissão da Verdade enquanto muita gente nem sabe o que é a Comissão da Verdade”. Daí a idéia era essa: fazer um vídeo de cinco minutos explicando.
 
Peu: É, era realmente algo simples. No momento ali eu ainda desenhei um roteirinho pensando como se estruturaria mais ou menos e achei que cinco minutos seriam suficientes. Aí, quando fui trocar essa idéia com a Paula, falamos “opa, que tal fazer isso, isso e isso” e aí já era, né? Começamos a colocar a idéia no catarse e a fazer um roteiro mais elaborado...
 
Paula: Na verdade, a partir daí, começamos a fazer uma lista de pessoas e a gente olhou para a lista e falou “tá, isso não dá em cinco minutos,” daí fizemos a primeira entrevista e o áudio ficou ruim. Acabamos precisando de grana para comprar um equipamento fino de áudio, vimos que precisaríamos de grana para ir para o Araguaia também, daí, quando vimos o tamanho dos gastos, achamos melhor colocar no Catarse e daí...
 
Peu: Só uma coisa importante: até agora só falamos do que foi posto em prática, do tipo “ah, fizemos isso, isso e isso”, mas ainda tem uma certa angústia, uma indignação da nossa parte de que a sociedade não se envolve, sabe? O documentário também serviu para a gente tentar ir contra essa corrente. Então, além dessa questão prática, do que fizemos e etc., ainda tem a questão de se expressar contra essa corrente de anestesia que existe.
 
Paula: Bom, daí fizemos um orçamento não muito alto, porque não dá para pedir uma quantia de por exemplo 100 mil reais no Catarse, e fizemos uma pesquisa, lemos muito a respeito de financiamento no Brasil, vimos em até quanto os projetos são apoiados, e no final decidimos pedir 17 mil reais em quarenta dias, e conseguimos 18 e meio. E o melhor do Catarse, 18 mil reais é muito pouco para fazer um documentário, tiramos muita grana do nosso bolso e etc., mas foi uma coisa que nos deu força e nos possibilitou duas coisas. Uma, a entrada da grana. Com ela a gente foi atrás de equipamentos melhores, pudemos ir para o Araguaia e, sem essa grana, talvez não pudéssemos ir, demos grandes passos e profissionalizamos o projeto; e por outro lado, havia 152 pessoas que tinham dado grana e nós não podíamos decepcionar essas pessoas, sabe? Criou-se uma expectativa em cima do filme e nós tivemos que assumir essa responsabilidade, não era mais simplesmente fazer um videozinho. Saímos na Folha, na revista Claudia, “Casal recebe doação para fazer filme sobre a Comissão da Verdade”...
 
Peu: A arrecadação desse dinheiro acaba promovendo esse trabalho, sabe? Além das pessoas que deram a grana, ainda tem as pessoas que não doaram, mas que estavam sabendo do projeto, que acharam legal, e isso criou um corpo, tomou uma dimensão enorme. Além disso tudo, veio uma obrigação de preencher essas lacunas, do tipo, não estamos sozinhos, e também a energia, o combustível para fazermos o projeto dar certo, que veio das pessoas.
 
Correio da Cidadania: Voltando à FEP, tive a oportunidade de acompanhar alguns atos, um deles no antigo DOI CODI, aqui no Paraíso, e a pergunta é: por que vocês entraram para essa militância em específico?


Paula: A história da FEP, da Frente de Esculacho Popular, é meio engraçada. Ela surgiu na minha casa. Eu já conhecia os escrachos na Argentina e no Chile e um belo dia (17 de outubro de 2011), no Roda Viva, sabe, lembra quando reformaram o Roda Viva, o cenário e tal, e reabriram o programa com o Mario Sergio Conti de entrevistador? Então, quando o Conti foi reestrear o Roda Viva pegaram quem para ser o entrevistado? O Cabo Anselmo. Eu lembro que era uma segunda-feira, começo de semana, tinha sido um dia insano, eu tinha trabalhado que nem uma louca, chegado em casa destruída e deito no sofá da minha sala, da minha casa, e vejo aquele sujeito rindo da minha cara, entendeu? Eu me senti violentada. Eu pensei “cara, esse sujeito está dentro da minha sala rindo da minha cara”. Então, a tensão aumenta para mim, me dá até arrepios falar sobre isso. E com o estômago revirado, era uma coisa insuportável. Foi um negócio desesperador, eu me senti violentada no meu sofá, dentro da minha casa e pensei assim: cara, esses caras estão por aí, e estão impunes e rindo da nossa cara, e vão em rede nacional falar que tudo bem, que o que eles estavam fazendo era bom, senão o Brasil iria virar uma ditadura comunista.
 
E daí eu fiquei maluca, liguei para uma amiga e falei “fulana, estou passando aí e preciso de uma amiga para ir nesse rolê comigo”; fomos até a porta da TV Cultura de carro, tampei as placas do carro, parei lá e falei “fulana, fica no volante, se eu entrar correndo, você vai embora, tampei as placas, o radar não vai pegar velocidade, só faz isso”. Fui para a porta com um ovo em cada mão e pensei“bom, se esse cara foi na minha casa rir da minha cara, eu vou pelo menos chamar ele de ‘verme’ ali na porta da emissora”. E ele dizer que o que fez foi um favor à pátria, entregar a mulher dele grávida de um filho que era dele também, ela foi torturada e morta. Ele era infiltrado na VPR (Vanguarda Popular Revolucionária, grupo de luta armada). Daí eu fiquei ali na porta da TV Cultura conversando com o segurança, ele falou “você está esperando alguém? É filha do entrevistado?”. Eu falei “não, o único filho que ele poderia ter, ele mandou matar, a mulher grávida”; e o cara não acreditava. Daí, para não ficar discutindo muito com ele, disse que eu estava “esperando o meu namorado que trabalhava ali e já ia sair”.
 
Quando ele saiu, eu joguei um ovo no para-brisa e saíram os seguranças de dentro do carro para vir atrás, era um carro blindado, acho, e quando eles abriram a porta, eu gritava numa altura para ele me ouvir: velho, assassino, filho da puta. Cheguei em casa revoltada, mandei e-mails para alguns amigos que eu sabia que se preocupavam com essa questão de uma forma ou de outra, ou por terem gente na família que sofreu diversas formas de violência, ou que simplesmente não acham justo viver em um país sem memória; falei “gente, aqui tem um vídeo de um escracho que ocorreu no Chile, contra o assassino do Victor Jara (famoso cantor chileno)”. Era fim do ano isso, daí falei “ó, reunião na minha casa em janeiro, beijos”. E assim começou. Então eu acho que surgiu, e já tinham tentado criar comitês com os velhinhos, antigos militantes, já existia essa conversa, não fui eu que inventei nada, mas houve aquele passo, no sentido de “agora a gente vai fazer”.
 
Os velhinhos num primeiro momento não apoiaram a gente, depois eles super apoiaram, compraram a briga. E por que isso? Porque um sujeito que torturou, matou, e que entregou até a própria esposa grávida, não pode estar por aí solto, sabe? Ele no mínimo deveria ter sido julgado e a justiça ter sido feita. Porque nem isso, né; o escracho e o nosso filme também, eles são atos quase que desesperados, de dizer “gente, acorda!”.
 
O lema da FEP é “se não houver justiça, haverá esculacho popular”, e em um momento em que se está fazendo a justiça na Argentina e no Chile, em que o Videla (ditador argentino) foi preso, eles pararam de fazer os escrachos por lá, não precisavam mais ir atrás dos torturadores, porque eles estavam sendo presos. Mas isso não acontece aqui. E é exatamente por isso que essa idéia foi levada adiante. Podem até dizer que você não viveu a ditadura ou que não tem parentes mortos e desaparecidos, mas você vive em um país onde pode cruzar na rua com um torturador, um estuprador ou um ocultador de cadáveres.
 
Peu: Porque além de torturar, matar, eles também aumentaram essa alienação toda, afastaram ainda mais o povo das decisões políticas, do pensamento critico, das universidades. Já tínhamos um viés voltado para isso antes, e eles ainda catalisaram esse processo. E se envolver nisso é perceber o que está acontecendo e não tem como não se envolver nisso, sabe?
 
Correio da Cidadania: Em que pé está atualmente esse movimento dos esculachos?
 
Paula: A gente se desarticulou bastante após as manifestações de junho e julho, estamos fazendo menos reuniões, nos encontrando menos e os escrachos promovidos pelo nosso grupo não saem faz um tempo. Até porque precisamos ter certeza que fulano é um torturador, não podemos ir à casa de uma pessoa, fazer um escracho dizendo que ele é um torturador e no final das contas ele não ser. Precisamos ter provas, depoimentos, a gente procura, por exemplo, fazer escracho contra pessoas que estão sendo investigadas ou sofrendo ações penais ou declaratórias do Ministério Publico Federal, assim temos algum respaldo legal, que nos ampara, do tipo “esse cara torturou, esse cara desapareceu com corpos”.
 
E bom, agora estamos desarticulados, mas estamos aí. E tem também outros grupos e, enfim, isso não acabou, enquanto não houver justiça, haverá esculacho popular, os caras estão aí. A FEP está no momento focando menos na ditadura e participando de debates sobre a desmilitarização da PM, porque nos nossos escrachos, e também no filme fazemos isso, uma ponte com o presente: de que a impunidade do passado dá a carta branca para a impunidade do presente, em todas as ações da FEP, deixamos isso bem claro, do tipo “olha só, se a polícia te dá porrada na rua em uma manifestação pacífica, é porque eles sumiram com corpos no passado com a certeza da impunidade, ou seja, eles têm certeza que podem fazer certas coisas”.
 
Correio da Cidadania: Vamos entrar mais a fundo nessas questões: que semelhanças e diferenças vocês vêem entre os militares daquela época e a PM de hoje, e de que forma sistemática essa cultura de tortura, de espancamento, se manifesta nos diferentes momentos históricos?
 
Peu: Essa é uma resposta muito complexa. Tem a PM, tem a polícia em geral etc., que são ensinados que a lógica é essa, sabe? Eles têm aulas na academia deles e tal que ensina que não teve golpe de Estado, mas que houve uma revolução, então até hoje os erros deles são tratados assim, sem autocrítica alguma. Não há uma conversa sobre o que realmente aconteceu, não há um debate sobre a polícia realmente estar do lado da população, tem mesmo é essa lógica, essa estrutura de repressão. Não é uma parceira da população...
 
Paula: É, ela é muito menos uma força de segurança e muito mais uma força de repressão, na sua essência, na sua história. Tem um tenente da PM, que é o tenente Paz, o nosso único policial amigo, o tenente subversivo, foi preso na ditadura, e ele conta para nós a história. A polícia surgiu quando? Em 1800 e tanto, para reprimir os abolicionistas; então, ela sempre foi uma força para manter o status quo, manter a sociedade como ela está. Tentou manter daquele jeito, e depois a ditadura veio teoricamente para manter uma determinada ordem e não deixar uma suposta ditadura comunista se instalar, e hoje em dia tenta manter a mesma ordem. Reprimindo pessoas que estavam lutando pela redução de uma tarifa absurda do transporte público.
 
Peu: Na ditadura, ensinou-se que o pensamento de elite está certo. Que reprimir etc. está certo. Como eles conseguiram destruir o pensamento crítico em relação a isso, acabou enraizada essa lógica. E esse é um processo que está continuando, ele não parou no tempo.
 
Paula: A maior diferença para mim é o alvo dessa violência: antes eram militantes de esquerda, hoje são negros e pobres da periferia. No nosso filme temos depoimentos de familiares que desde 71 não sabem se seus parentes estão vivos ou mortos, que desde aquela época estão desaparecidos e eles não sabem onde estão; hoje, a família do Amarildo, por exemplo, vive a mesma situação. Em plena democracia, um absurdo. Ele entrou em um carro de polícia, de uma polícia teoricamente pacificadora, e desapareceu. Não só foi morto, como dizem que foi torturado, como também não foi achado o corpo. E aí? Sabe, cadê o Amarildo? Cadê a Ísis de Oliveira? Cadê o Rubens Paiva? Cadê os corpos desaparecidos? Entende? Eles sabem de tudo, eles sabem, e até hoje ninguém foi preso, por que a gente não pode fazer? Só porque é pobre, é negro, mora na periferia....
 
Peu: A lógica não tem muita diferença, pelo menos hoje a gente pode participar de algo assim, né, isso realmente é um avanço, mas a lógica está aí. E é revoltante ver que a população não se envolve, que essa maneira, essa lógica está enraizada, parece que está apenas começando um processo. É interessante ver o que a internet proporciona em relação a esses temas, a divulgação das nossas idéias, dá um certo ar de democratização da informação. E essa democratização da informação permite esse processo ir para frente.
 
Paula: Se você vê um PM batendo numa menina na manifestação, prendendo alguém, você pode filmar e pôr na internet, às vezes pode até pautar a grande mídia. Acho que é nesse sentido mesmo.
 
Correio da Cidadania: Vocês acham que é possível falar em democracia tendo em vista todo esse processo da repressão sendo confundida com segurança, fazendo com que a polícia siga a velha lógica de não ser amiga das pessoas, mas sim de determinados interesses?
 
Paula: Acho que não se pode falar sobre democracia de fato. A gente agora está fazendo um outro trabalho, que é um vídeo sobre advogados que lutaram contra a ditadura; e a entrevista sempre começa perguntando o que é justiça e o que é direito. O que é a justiça e o que é o direito hoje? E eu acrescento, o que é a democracia? A democracia de um cara que mora na Maré no Rio e pode ser morto a qualquer momento e ter seu corpo desaparecido é a mesma democracia que a minha, que não moro na favela, moro na Vila Madalena, em São Paulo, que tenho mais condições? Enfim, a minha democracia é mais democrática do que a dele, e isso é ridículo, é horrível, sabe, eu acho que não vou ter o meu corpo desaparecido porque a mídia vai se importar um pouco mais comigo do que com ele.
 
E o que muitos desses caras respondem é muito interessante: que a democracia, a justiça e o direito sempre obedecem a uma lógica econômica. Sendo assim, não se pode falar em uma democracia de fato, ainda mais quando nesse bolo entram crimes gravíssimos de violação dos direitos humanos que não foram sequer apurados, investigados. A justiça do (Carlos Alberto Brilhante) Ustra, por exemplo, também é maior do que a minha justiça, a democracia do Ustra, os direitos dele de matar, estuprar, desaparecer com corpos, são maiores do que os dos outros, enquanto uma amiga nossa não tem a avó. O pai dela não sabe onde está o corpo da mãe, então isso é muito grave. O direito infelizmente está vinculado a essa lógica de manter o status quo a partir de um viés econômico.
 
Correio da Cidadania: Bom, falamos sobre o direito, a justiça, a democracia, mas e a mídia? Se antes ela usava palavras como “subversivo e terrorista”, hoje ela não se cansa de falar em “vândalos, baderneiros” e fazer a distinção entre “bons e maus” manifestantes, “bandidos”, quando se refere a pessoas da periferia, principalmente se forem negros. É possível fazer esse mesmo paralelo em relação à mídia? Tendo em vista as constantes campanhas difamatórias da juventude, principalmente a da periferia, e dos movimentos sociais, atualmente tendo o blackbloc como principal alvo.
 
Peu: A grande imprensa olha para os fatos com o olhar de um capitalista. Ela vai falar o que aquele cara ali, que faz parte, ou visa um lugar na mesa de jantar do sistema, quer ler, ouvir, ou seja, a relação ali é muito voltada para a grana, então escreve-se o que é mais fácil de ser vendido para esse público. Não quero transformar isso em um panfleto anticapitalista, isso é uma leitura, a grande mídia é um negócio mesmo, funciona assim.
 

Paula: E talvez mais grave ainda é a mentalidade dessas grandes empresas de mídia, que seguem a mesmíssima lógica da qual estamos falando aqui. Sabe, quem são os donos das grandes empresas de telecomunicações do Brasil hoje? São senadores, famílias riquíssimas, são oligopólios, são grandes grupos da elite. Eles pegam esses veículos e veiculam as ideologias deles, defendem os interesses deles, propagam as idéias que bem entendem...
 
Peu: E aí fica essa representação de uma lógica que precisa ser mantida.
 
Paula: Isso me lembrou um caso muito grave, que representa bem essa história de que antes era terrorista e hoje é vândalo. É o do Ivan Seixas, filho do então militante Joaquim Alencar de Seixas. Ele havia sido preso junto com o pai no DOI CODI e posteriormente levado pelos militares para uma simulação de fuzilamento no parque do Estado. No caminho, ele passou de carro em frente a uma banca de jornal e viu uma foto do pai dele na capa da Folha da Tarde e a manchete era algo como “morre um terrorista”; e daí ele voltou ao DOI, e o pai estava lá, vivo. Então, imagina a inserção que a ditadura não tinha nesses jornais, no sentido de “vai lá, dá essa notícia”. Daí o jornal dá a notícia da morte do cara de dia, mas ele está vivo, e é só de noite que vão de fato matá-lo.
 
Neste caso foi assim. E hoje funciona mais ou menos igual, tem a mesma falta de respeito com a pessoa acusada. Você liga o jornal nacional por exemplo e está lá: “Foram presas três pessoas acusadas de roubar não-sei-quem”. E daí aparece na globo o cara ali, algemado, colocam ele até na frente do banner da polícia, mas sabe, o cara ali ainda é suspeito e está em rede nacional sendo acusado de roubo. Mesmo que ele seja inocente e posteriormente prove isso, a inocência dele não vai sair numa errata do jornal nacional e ele estará ferrado do mesmo jeito, pois, para a opinião pública, ele já é culpado, já foi dado o veredicto. E acabou a vida dele: dificilmente conseguirá um emprego, imagina o quanto ele vai sofrer moralmente na comunidade onde mora, entendeu? A promiscuidade da grande mídia é muito grave.
 
CDC: Numa conversa preliminar, vocês comentaram sobre um incidente em um cemitério agora essa semana relacionado à questão da memória, podem contar pros leitores um pouco sobre esse episódio?
 
Paula: Estava rolando a Bienal de Arquitetura aqui em São Paulo e uma das obras era uma instalação no cemitério do Araçá, do artista e músico, Celso Sim e de uma arquiteta, a Anna Ferrari. No cemitério do Araçá estão as 1049 ossadas retiradas da vala clandestina de Perus. Essa vala foi descoberta nos anos 90, durante a prefeitura da Luiza Erundina, e as ossadas, possivelmente restos mortais de desaparecidos políticos, foram transportadas para o Araçá para ficarem lá até teoricamente serem identificadas. Suspeita-se que há ossadas tanto de militantes quanto de pessoas que não eram militantes, de indigentes e tal. E daí fizeram essa instalação que tem um texto do Helio Oiticica adaptado pelo Celso Sim; você entra nela e passa uns vinte minutos percorrendo a instalação dentro do cemitério até chegar ao ponto principal, onde há a projeção de um vídeo sobre uma pedra de mármore que eles fizeram e que diz exatamente sobre a possibilidade de haver ocorrido o que ocorreu com essas ossadas.
 
Então eles quiseram fazer essa instalação no local onde estão localizadas essas 1049 ossadas, para pôr essa questão em evidência. Eis que um dia, antes da abertura da instalação, entraram no cemitério de madrugada e depredaram tudo, destruíram toda a instalação, incluindo a pesadíssima pedra de mármore. E isso saiu em pouquíssimos veículos de imprensa. E foi um crime muito grave, é uma depredação de uma obra de arte pública ali, que discute temas relacionados com a democracia, a cidadania, em um espaço público, que deveria oferecer uma certa segurança.
 
Correio da Cidadania: Muito interessante toda essa análise que estamos fazendo, mas vamos falar sobre as filmagens. Gostaria de saber mais sobre a viagem de vocês para o Araguaia, um retrato mesmo dessa viagem.
 
Paula: Claro que foi muito difícil em um primeiro momento, imagina dois paulistanos chegando lá para filmar as pessoas.Paulistanos gostam de deixar tudo agendado, já ter os contatos e os horários certinhos para encontrar as pessoas e isso não acontece lá. A gente estava trabalhando durante boa parte das filmagens, então filmávamos nos finais de semana e feriados e, durante a semana, trabalhávamos para nos sustentar. Daí definimos que iríamos para o Araguaia no carnaval, e assim compramos as passagens dois ou três meses antes. Nesse carnaval passado, de 2013. A meta era entrevistar os camponeses, e estar com tudo agendadinho, super organizado, pois teríamos pouco tempo lá. Bom, pensei, fizemos uma pesquisa no youtube, na internet, para ver quais camponeses queríamos, fizemos a lista, passamos para conhecidos nossos que foram do Partidão, estiveram no Araguaia, para que pudessem nos auxiliar na escolha; até porque existem camponeses que hoje dizem que ajudaram os guerrilheiros mas, na verdade, naquela época, colaboraram com os militares.
 
Daí começou a incansável busca pelos camponeses. E chegávamos lá para falar com fulano e ele não estava ou alguém dizia “ah, agora ele não pode, volta mais tarde, volta amanhã”, e não havíamos conseguido falar com nenhum camponês em Marabá, em lugar nenhum. Encontramos um grupo que já havia feito um documentário sobre o Araguaia, chama Araguaia Campo Sagrado, e foram eles que abriram nossas portas. Colocaram a gente dentro de um carro, nos levaram uns 100km pra dentro da transamazônica, que passou por cima dos índios e etc., em nome do progresso do Brasil, e nos levaram lá na cidade para falar com o presidente da associação dos torturados do Araguaia. E esse cara nos salvou. Pois ele nos levou para a casa de um camponês, e esse nos levava para a de outro, que levava para a de outro e de outro. Alugamos um carro para ir para as casas de todos esses camponeses.
 
Lá acontece uma coisa que eu acho muito curiosa, que era o comandante do exército na região que, depois da guerrilha, virou prefeito de uma cidadepróxima e é dono de umas terras; ou seja, ele ainda mora lá e, com ele, ainda existe um medo dos camponeses e das pessoas em geral em falar sobre a guerrilha e sobre as coisas que aconteceram por lá.
 
Correio da Cidadania: Pegando como gancho uma coisa que vocês haviam dito na estréia do filme: os camponeses viam algo dos guerrilheiros em vocês?
 
Peu: Teve uma coisa afetiva muito forte com eles assim. Eu fiquei muito ligado ao Seu Pedro, que é um cara muito culto. Ele, sem querer, na fala dele, me passou todo um contexto de como eram as coisas lá antes e depois da guerrilha, falou sobre como foi politizado, sobre como se envolveu com os guerrilheiros, foi muito legal, sabe? A gente comeu com eles, em uma casa muito humilde, muito simples. Lá estava muito difícil, muito quente, úmido, a gente acabou se entregando àquelas pessoas e à situação.
 
Paula: Sabe, por que viram semelhança entre nós e os guerrilheiros? Éramos dois paulistas que chegaram ali, diferentes deles. A gente não era camponês, não éramos da roça nem nada....
 
Peu: Sim, e chegamos também de coração aberto, com uma postura aberta, querendo se envolver com eles, rolou uma identificação.
 
Paula: Como a Dona Adalgisa fala, “era gente educada, gente sabida...”, e éramos mesmo muito diferentes deles, mas em uma postura positiva, sem querer nos impor, pelo contrário. Acho que se identificaram com isso também.
 
Peu: Ah, deixa eu falar da Vale. Bom, chegamos em Marabá e fomos jantar com um pessoal de lá. No jantar, eles comentaram sobre como a Vale atua na região. E a gente não tem idéia. Eles contaram que, por exemplo, se a Vale está interessada em uma região e lá tem uma cidade, que ela chega na cidade e compra o açougue, compra o mercado, compra a padaria, e depois fecha tudo. Daí o morador não tem mais opções de açougue, de padaria, de mercadinho, de nada, e vão embora da cidade, liberando o espaço para a Vale entrar. Além disso, se vai um repórter de fora para lá investigar isso, em todo lugar para onde ele vá, vai junto com ele um capanga. Daí o repórter senta em um lugar para tomar café e o capanga está na mesa ao lado fitando sem se preocupar em fingir que não é com ele. A Vale hoje, uma gigante principalmente lá na região amazônica, e outras empresas também, são empresas que cresceram muito durante a ditadura, com dinheiro proporcionado pela própria ditadura.
 
Correio da Cidadania: Vocês poderiam citar aqui dois depoimentos presentes no filme que mais emocionaram vocês: um do Araguaia e outro daqui do Sudeste?
 
Peu: Lá no Araguaia eu me emocionei com o Seu Pedro. Ele que é um cara consciente, lá no meio do Pará, ao longo da vida, buscou estudar, ler muito, se informar, ele argumenta muito bem. Mas o que mais mexeu comigo foi um trecho da Adalgisa, quando ela fala dos guerrilheiros: “gente do peito da gente, eu gostava muito daqueles guerrilheiros”. Aquilo ali eu acho que tem uma carga emotiva muito forte.
 
Paula: Eu acho que essa fala de que “os guerrilheiros eram gente do peito da gente” é muito emblemática, porque, afinal, quem eram os guerrilheiros? Eram estudantes de medicina, de humanidades e, além de tudo, além das atividade da guerrilha, eles ainda prestavam atendimento às pessoas, conversavam, contavam histórias para as crianças de noite... Faziam uma série de atividades e prestavam atendimentos para um povo que era carente de tudo.
 
Sabe, eu como jornalista e como pessoa, desde que me entendo por gente, a questão da ditadura sempre me chamou a atenção, me comoveu, então imagina, vi tudo quanto é filme, li livros etc.; eu achava que nada mais me pegaria, sabe? Mas, daí, conversando com esses camponeses do Araguaia, com as famílias dos desaparecidos, sempre me cai uma lágrima, eu pude perceber que meu coração não endureceu, que ainda estou sensível. A parte que mais me pega é a da dona Otilia, mãe de Ruy Carlos Vieira Berbert, desaparecido em 1971,pelo motivo de que elae a Regina, irmã do desaparecido, enterraram o parente delas sem que houvesse um corpo. Imagina o tamanho desse desespero, dessa desolação.
 
O corpo é importante, sabe? Você vê o corpo ali do seu parente e pensa “pô, o cara morreu”;  no caso delas, o corpo não está, e elas não fazem a menor idéia de onde esteja. Por exemplo, no caso do Virgílio Gomes da Silve, que desapareceu em 1969, eu perguntei para a Ilda, sua viúva, quandoela teve certeza da morte; e ela me disse que em 2004, quando o Mario Magalhães encontrou um atestado de óbito dele. Daí eu falei “nossa, de 69 a 2004, são 35 anos aí”; e ela respondeu “ah, eu achei que ele pudesse ter sido torturado, solto e agora estivesse meio maluco por aí, andando como mendigo”.
 
Verdade 12.528 – Ficha Técnica
Direção e produção: Paula Sacchetta e Peu Robles
Montagem e finalização: André Dib
Música original: André Balboni
Som direto: André Mascarenhas
Cor: Pedro Moscalcoff
Efeitos: Alison Zago
Mixagem: Gui Jesus Toledo
Produtora de áudio: Estúdio CANOA
Realização:João e Maria.doc
Cor, 55 minutos
 
*Devido as inscrições do documentário em diversos festivais, ele ainda não está disponível na internet, mas é possível visualizar as atualizações dos diretores e a agenda de exibições para 2014 na página João e Maria.Doc: http://joaoemariadoc.com/doc-verdade-12-528 ou facebook/

Raphael Sanz é jornalista.

Com sinais preocupantes, dependência externa desnuda-se em 2013

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A especialização primária com desindustrialização no comércio externo, acrescida de uma situação estruturalmente deficitária nas transações com “Serviços”, caminha para fechar o ano de 2013 com déficit na faixa de 75 a 80 bilhões de dólares, algo como 3,5% do PIB. Essa situação vem se deteriorando desde 2008, por meio de dois agravantes: 1) o déficit da conta de “Serviços” não para de crescer, pulando dos 50 para a faixa dos 75 bilhões de dólares do período Lula para o período Dilma, enquanto no início da década dos anos 2000 (segundo governo FHC) se situara no patamar dos 25 bilhões de dólares; 2) em adição a esse desequilíbrio estrutural, o comércio exterior de manufaturados sofre o efeito da ‘desindustrialização’, ou seja, crescentemente deixamos de exportar manufaturados para importá-los. Estima-se em 100 bilhões de dólares o déficit comercial dos manufaturados ao longo do ano de 2013

 
Essa situação de déficits seguidos e crescentes nas transações externas está bem documentada empiricamente, já não pode ser escondida mediante discurso escapista, mas precisa ser interpretada. É algo assim como o diagnóstico de uma aurora ou de um ocaso, que o observador experiente não confundirá, bastando saber ler a posição do Sol e a disposição dos raios solares. Mas identificados objetivamente os sinais do tempo e constatada a presença de uma aurora ou de um ocaso (independente da posição ideológica do observador), variam enormemente os significados do tempo sobre o devir, na percepção e avaliação dos sujeitos observadores.
 
Dois fenômenos também fartamente documentados do ponto de vista empírico se cruzaram neste ano corrente: a forte concentração de bens primários na exportação (‘reprimarização’ do comércio externo) e a fuga dos produtos manufaturados das exportações, trocando de posição para as importações – a desindustrialização das exportações. E pela primeira vez desde 1995-99, quando a Balança Comercial foi seguidamente negativa, poderemos ter uma situação similar em 2013.
 
Mas a conta da moeda estrangeira não fecha somente com comércio de mercadorias, daí porque o tamanho do déficit de Serviços torna-se preocupante, porque precisa ser financiado com recursos externos. Esses recursos externos (capitais estrangeiros) acumulam-se na economia, gerando passivos externos, principalmente as rendas do capital, geradoras de novos déficits na Conta de Serviços. Essa bola de neve, quando claramente insolvente, caminha para uma crise cambial, como a que tivemos em 1999.
 
A solução para a crise externa de l999, que foi a de conduzir o sistema econômico para a via primário-exportadora, seguida de seu irmão siamês, qual seja, a desindustrialização do comércio externo, não resolve o desequilíbrio externo. Isto agora está meridianamente claro. O problema maior está na leitura que o sistema conservador ora faz do sentido de sair da crise cambial que se desenharia, com a repetição do último triênio (2010/2013) por mais outro. Parece que se volta a apostar no aprofundamento da exploração das “commodities’ do setor primário, especialmente do petróleo, cujos ritmos de produção precisariam experimentar superexploração em médio prazo para dar solvência à dependência externa.
 
A conjuntura atual desenha certa reversão cíclica dos preços externos de produtos minerais, exceto petróleo, agrícolas e pecuários, algo que é normal na história econômica, mas que virou um problema fundamental para a economia brasileira, dado o caminho estruturado na última década.
 
Temos algum tempo para resolver os dilemas do presente. A eleição de 2014 não será igual à de 1998, quando a mídia sistematicamente escondeu a crise cambial para não prejudicar a reeleição do presidente Fernando Henrique. Agora ao contrário, tenta-se forjar uma crise cambial iminente, que não é verdadeira. Mas é infelizmente uma meia-verdade, tecida pelo casamento infeliz da ‘reprimarização’ com a desindustrialização do comércio externo, processos que não são apenas fenômenos empíricos, mas estruturas perversas da economia política do subdesenvolvimento, recuperadas depois de 1999, mas que precisam ser reformadas em profundidade.
 

Por Guilherme Costa Delgado é doutor em Economia pela UNICAMP e consultor da Comissão Brasileira de Justiça e Paz.

Presidente do CPERS/Sindicato, Rejane de Oliveira, recebe ameaças de morte

Presidente do CPERS/Sindicato, Rejane de Oliveira, recebe ameaças de morteNa sexta-feira 13, o CPERS/Sindicato recebeu diversas ligações telefônicas de uma mesma pessoa fazendo ameaças à presidente Rejane de Oliveira em virtude de sua participação nas mobilizações que estão ocorrendo no Rio Grande do Sul. Intercalando insultos e grosserias, essa pessoa ameaçou agredir e matar a presidente.
 
Imediatamente, a direção do sindicato tomou providências de segurança e identificou o número do telefone utilizado para fazer as ameaças. Acompanhada de advogados e de outros dirigentes da entidade, Rejane registrou Boletim de Ocorrência na 1ª Delegacia de Polícia de Porto Alegre.
 
Para o CPERS/Sindicato, essas ameaças buscam intimidar a luta dos trabalhadores através da perseguição aos dirigentes sindicais que se mantêm independentes de patrões e governos. São reações de cunho fascista de alguém que não se conforma com a onda de lutas aberta no país com as jornadas de junho. Configuram, portanto, um gravíssimo ataque à democracia e à liberdade de organização sindical. E uma ameaça real à vida da presidente do sindicato, que exerce um papel de liderança nas mobilizações em curso no Rio Grande do Sul.
 
A ampla denúncia dessas ameaças é necessária para impedir qualquer tipo de agressão aos lutadores e, em especial, para preservar a segurança da companheira Rejane. Nossa luta não será intimidada por ameaças fascistas e insanas. O CPERS/Sindicato continuará sua luta intransigente na defesa dos educadores e de uma educação pública de qualidade para os filhos dos trabalhadores do Rio Grande do Sul.
 
Por João dos Santos e Silva, assessor de imprensa do CPERS/Sindicato

Rio de Janeiro:Governos gastam com megaeventos e não preparam cidades para chuva

Em meio à chuva que para o Rio e deixa população ilhada, dirigente da CSP-Conlutas critica privatizações e desvio de dinheiro para eventos como Copa e Olimpíadas
 
Os governantes gastam muito dinheiro público com grandes obras para os megaeventos, mas pouco ou nada investem para melhorar as condições da cidade para enfrentar as chuvas e evitar transtornos e situações de risco para a população.
 
Quem afirma é a CSP-Conlutas (Central Sindical e Popular), por meio de um de seus coordenadores no Rio, Gualberto Tinoco, o Pitéu. “Gasta-se uma fortuna com grandes eventos e com qualquer chuva a cidade pára”, disse, por telefone, enquanto aguardava já há quase três horas, nesta quarta-feira (11), a liberação de uma alagada Rodovia Presidente Dutra, na altura de Jardim América, no Rio, para que o ônibus em que estava pudesse prosseguir viagem.
 
O dirigente sindical também criticou as privatizações promovidas pela presidenta Dilma Rousseff, que está ampliando a transferência de estradas para empresas privadas administrarem e instalarem pedágios. “O governo privatiza as rodovias e não garante as obras nas cidades”, disse.
 
Faz poucos dias, 16 pessoas morreram em decorrência das chuvas que caíram sobre Lajedinho, na Chapada da Diamantina, no interior da Bahia, região que sofria com a seca que atinge o Nordeste brasileiro.
 
R$ 8 bi com estádios
O dirigente da central fez críticas ainda ao prefeito do Rio, Eduardo Paes, que também está privatizando parte da cidade, como as áreas da região portuária, que estão em obras. “Até a via expressa recém-criada [alagou] e parou tudo”, disse, referindo-se à via Binário, inaugurada há apenas dois meses e construída pelo consórcio privado que ganhou da Prefeitura o direito de explorar a área do Porto Maravilha. A uma rádio, o prefeito disse que só um ‘erro de engenharia’ poderia explicar o que aconteceu para a que a nova avenida, construída para substituir viaduto que está sendo demolido, alagasse.
 
A previsão do Ministério dos Esportes é de que somente com a construção ou reforma dos 12 estádios da Copa do Mundo da Fifa de 2014 sejam gastos R$ 8 bilhões, valor quase totalmente oriundo dos cofres públicos. As obras de reforma do Maracanã, preparado para ser o palco da final do torneio, já custam cerca de R$ 1,3 bilhão – dinheiro que saiu basicamente do BNDES e do governo estadual.
 
Por Helcio Duarte Filho é jornalista do SINDSPREV-RJ, da CSP-Conlutas/RJ

Nesta terça-feira acontece reunião para o 1º Encontro Nacional de Negr@s da CSP-Conlutas

Nesta terça-feira acontece reunião para o 1º Encontro Nacional de Negr@s da CSP-ConlutasNesta terça-feira (17), o Movimento Quilombo Raça e Classe discutirá na sede da CSP-Conlutas Nacional a proposta do 1º Encontro Nacional de Negras e Negros da CSP-Conlutas, com probabilidade de acontecer no mês de março de 2014.
 
O Movimento Quilombo Raça e Classe e a CSP-Conlutas convidam aos movimentos interessados a participarem deste encontro de discussão importante para planejar os próximos passos de luta para o ano que vem.
 
Confira abaixo a proposta projeto deste importante encontro nacional do movimento negro:
 
PROPOSTA PROJETO – Iº ENCONTRO NACIONAL DE NEGRAS E NEGROS DA CSP CONLUTAS
 
DIAS: 22 e 23 MARÇO DE 2014 – SÃO PAULO
 
EQUIPE DE ORGANIZAÇÃO: CSP CONLUTAS, QRC, SINASEF, ANDES, SINDSEFE/SP, METRÔ/SP, SINTUR/RJ, COMERCIÁRIOS/NI, MIN. SEPE, SINDEESS, SINDREDE, ADIMAP, FNC.
 
EXECUTIVA ORGANIZAÇÃO: CSP CONLUTAS, QRC, COMERCIÁRIOS, SINTUR/RJ e SINDSEFE/SP
 
REUNIÃO: 17/12/2013            HORA: 09:00h               LOCAL: SEDE CSP CONLUTAS NACIONAL
LOCAL: Rua Boa vista , 76, 11º andar – São Paulo – SP
 
DELEGAÇÕES POR ESTADO: RS, SC, PR, SP, RJ, MG, BA, PB, SE, AL, PE, RN, MA, PI, PA, CE, MT, GO, AP, DF.
 
ESTRUTURA: CADERNO, PASTAS, CRACHAS, CAMISAS, BOLSAS, FAIXAS, CONVIDADOS, VIDEOS, Cartaz
 
FORMATO: MESA 1-ABERTURA/REGIM., MESA 2-CONJ/MN, 3-GRUPOS, 4-PLENÁRIA RESOLUÇÕES.
 
1- JUSTIFICATIVA
A partir de Junho e Julho abriu-se uma nova conjuntura de lutas e de mobilizações por todo o país. Desta vez impulsionadas pela juventude, disseminada pelas redes sociais contra o aumento das passagens e aliada a indignação popular contra o crescente processo de corrupção que se dá no meio parlamentar e as pautas sociais, tão reivindicadas pelos movimentos de nossas bases sindicais e sociais a anos, como, tem dinheiro para a copa mas não tem pra saúde e educação.
 
A incorporação da classe trabalhadora organizada pelas centrais (impulsionadas pela CSP Conlutas) e a mobilização dos novos organismos surgidos neste processo de Ascenso como Comitês de Lutas nos estados e o povo mobilizado, colocaram os governos em cheque, pressionando-os a garantir a redução das passagens, a acelerar o debate sobre recursos para a saúde e educação, claro que sem responder ainda de fato as necessidades da população – o positivo disto, é que estes processos proporcionaram um avanço na consciência da população que está mais crítica e exigindo mais seus direitos sociais.
 
Considerando a situação limite em que se encontra a massa negra proletarizada do Brasil e a “derrama” de dinheiro público aos empresários dos megaeventos definimos como temática para a Marcha Nacional da Periferia de 2013: “PELOS AMARILDOS… DA COPA EU ABRO MÃO”. A marcha aconteceu em várias cidades do país, e em cerca de 12 estados do Brasil, em muitos estados a organização e consti. este ano ganhou a adesão e fortalecimento de outros Movimentos de Opressões, Populares, Estudantis e Entidades Sindicais, foram marchas de denúncia e exigências políticas.
 
A Marcha da Periferia foi um momento que oportunizou darmos um passo adiante na unidade de classe levando em consideração sua especificidade interior. Ela tem a primazia de ser uma iniciativa da comunidade negra proletarizada mas em unidade com outros setores explorados e oprimidos do proletariado brasileiro (operários, professores, bancários, servidores públicos, estudantes, mulheres, homossexuais, etc.).
 
2-OBJETIVOS
            Considerando o processo de reorganização que vem se dando, pós traição do PT, CUT e UNE, que tem se acentuado desde 2010 no movimento sindical, popular e negro, este último com ênfase para o setor dos povos originários (quilombolas e indígenas), e em base ao conjunto de atividades que foram realizadas em todo o Brasil para a construção da Marcha da Periferia de 2013, aliado a conjuntura favorável para as lutas sociais, aberta desde as jornadas de junho, estima-se que possamos construir um Iº Encontro Nacional de Negras e Negros da CSP Conlutas com mais de 1000 mil pessoas. Que serão atingidas por debates e ações, com viés de raça e classe e de autonomia dos governos e patrões. Dentre os objetivos pretendidos, destacam-se:
 
Objetivo Geral:
A elaboração de um programa de “plano de lutas” da questão racial para a Central, que aprofunde o programa do último Congresso da CSP Conlutas e que tenha uma abrangência na base dos setores sindical, de luta contra as opressões, popular e estudantil.
 
Objetivos Específicos:
  • Possibilitar a troca de experiência entre diversos setores explorados e oprimidos da classe trabalhadora brasileira e do mundo no combate ao racismo, ao machismo e a homofobia;
  • Organizar, em âmbito nacional, um polo consciente de lutadores da classe trabalhadora e movimentos sociais para enfrentar os ataques do desmonte do estado e o racismo estrutural dentro da sociedade capitalista organizados e através da luta direta;
  • Sensibilizar e mobilizar a classe trabalhadora a lutar pela garantia ou conquistas de direitos básicos, mas sempre combinado com as pautas mais gerais da sociedade, levando em consideração o corte de raça e gênero com viés classista e socialista permanentemente;
  • Levar a juventude negra e pobre a se perceber enquanto vítimas do racismo e do “Mito da Democracia racial”; Elevar o nível de consciência racial da população negra da periferia numa perspectiva de classe;
  • Estreitar os laços entre a produção cultural revolucionária da periferia com a luta política revolucionária do conjunto da classe trabalhadora;
  • Criar espaços e políticas permanentes na Central e nos sindicatos que fortaleçam os trabalhadores negros e negra;
  • Sensibilizar e mobilizar os moradores da periferia a lutar pela garantia ou conquistas de direitos sociais básicos; E a pressionar o Estado a atender suas pautas;
  • Levar a juventude negra e pobre a se perceber enquanto vítimas de problemas comuns e a elevar o nível de consciência racial da juventude negra da periferia numa perspectiva de classe;
  • Fortalecer os movimentos de luta contra as opressões, popular e estudantil filiados à Central, no caso específico o Movimento Nacional Quilombo Raça e Classe como aliado no debate, na formação e organização da questão racial priorizando as bases dos sindicatos e movimentos filiados à CSP Conlutas.
 
Proposta apreciada durante a Reunião da Secretaria Executiva Nacional da CSP-Conlutas, realizada no dia 12/12/2013.