*Por Fabiana Frayssinet, da Inter Press Service (IPS)
O
réu, libertado ontem em Altamira, no Pará, foi condenado a 30 anos de
prisão em abril de 2010, mas foi libertado quando seus advogados
apresentaram um recurso de apelação. Um ano depois a decisão foi
revertida por um tribunal estadual, que considerou que deveria cumprir a
pena. “Não sei o que levou os ministros do STF a entenderem que não
existe risco”, disse à IPS o advogado Aton Fon Filho, que acompanha o
caso representando a Comissão Pastoral da Terra (CPT).
Aton
recordou que a decisão de voltar a prender o fazendeiro aconteceu
quando “se descobriu que pressionava trabalhadores de uma propriedade
que dizia ser sua, e entendeu-se que sua liberdade colocava em risco a
ordem pública”. Além disso, “a confirmação de sua responsabilidade na
morte de Stang foi acompanhada por atitudes que mantinham o estado de
tensão na região de Anapu. Ele continuou gerando ameaças aos moradores
do lugar e aos integrantes do projeto de desenvolvimento sustentável
criado pela freira”, afirmou o advogado.
Stang
foi morta a tiros em 12 de fevereiro de 2005 em Anapu, pequena
localidade amazônica onde foi missionária por 23 anos e na qual ajudava
os camponeses a lutarem por seus direitos diante dos interesses dos
grandes fazendeiros e das empresas madeireiras. Outras quatro pessoas
foram condenadas pelo assassinato, entre eles o também fazendeiro
Vitalmiro Moura, que cumpre 30 anos de prisão.
A
freira, de 73 anos, viveu por três décadas nessa zona da selva,
trabalhando ativamente em causas ambientais e pelo direito à terra dos
camponeses mais pobres. No momento de sua morte, executada com disparos à
queima-roupa, a religiosa carregava apenas uma Bíblia em suas mãos.
Segundo o promotor do caso, suas constantes denúncias de trabalho
escravo na região foram o motivo do assassinato.
O
temor do advogado Aton é que, solto, Galvão “volte a organizar seus
pistoleiros para novas ações criminosas contra integrantes da
organização sustentável de Stang”. Destacou que recente investigação da
Polícia Federal obteve indícios de que alguns policiais do Pará estavam
envolvidos com fazendeiros na prática de crimes e ameaças. Assim, os
ameaçados na região “não podem contar nem com a proteção de sua própria
polícia”, alertou o advogado, lembrando que com a prisão de Galvão as
ameaças e a tensão haviam diminuído.
Mauricio
Santoro, assessor de direitos humanos da Anistia Internacional no
Brasil, disse à IPS que embora o processo não tenha terminado, “há risco
de fuga do acusado”, e recordou que Galvão foi detido apenas em 2008,
três anos após o assassinato. Roniery Lopes, uma testemunha que ia depor
contra ele em um processo por fraude, morreu assassinado em 2009, antes
de poder dar seu testemunho. A mensagem é que “nem mesmo em um caso de
tanto impacto internacional, e com tantos antecedentes de problemas e
dificuldades, a justiça brasileira consegue uma resposta rápida, que
garanta a segurança dos defensores dos direitos humanos”, enfatizou.
A
morte de Stang não é um fato isolado em um contexto de abundantes
situações de violência rural. A CPT entregou à Secretaria de Direitos
Humanos da Presidência uma lista de l.855 pessoas que estão sob ameaça
por conflitos agrários. Os Estados mais violentos são Pará e Maranhão, e
minorias como povos indígenas e quilombolas são os mais vulneráveis,
afirmou a entidade. A CPT, vinculada à Conferência Nacional dos Bispos
do Brasil (CNBB), informou que nas duas últimas décadas morreram mais de
1.500 camponeses em conflitos agrários. A maior parte dos crimes ficou
na impunidade. Santoro alertou que a Anistia tem notícias de outros
casos que podem se converter na “próxima Dorothy Stang”.
Teme-se,
em especial, pela situação no interior do Maranhão, onde as comunidades
quilombolas sofrem constantes ameaças de proprietários locais. Foi
prometida proteção aos líderes comunitários ameaçados, mas isso não
aconteceu, segundo a Anistia. No Quilombo Pontes, no município de
Pirapemas, 45 famílias “são sistematicamente ameaçadas e intimidadas por
homens armados que rondam a área”, afirma uma ação urgente emitida
ontem pela Anistia. Seus cultivos e suas propriedades foram destruídos.
Santoro
e o advogado Aton chamaram a atenção também para a situação dos
indígenas guarani-kaiowá no Mato Grosso do Sul, pela demora na
demarcação de suas terras, que os levou a protestar ocupando prédios. Em
novembro de 2011, 40 homens armados atacaram um acampamento indígena,
assassinaram um líder e feriram vários outros índios. “Não se sabe de
medidas do governo para promover o desarmamento desses fazendeiros”,
afirmou Aton. E as ações de proteção especial sempre são tomadas depois
de cometido o crime, mas não de maneira preventiva como exigem estes
casos, ressaltou.
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