quarta-feira, 2 de abril de 2014

O esquartejador é coronel do Exército

A grande mídia (no que reside a sua grandeza?)  cobre com muito mais intensidade os passos do misterioso esquartejador paulistano que as declarações do coronel esquartejador de presos políticos, na ditadura. Assim como os espaços reservados às confissões do assassino sádico, impenitente e impune já haviam sido largamente suplantados pela cobertura  da vexaminosa tentativa de se repetir a tal marcha com Deus e o golpe.

Seguro da sua intangibilidade, e ciente de que não provocaria qualquer  reação ou comoção no Palácio do Planalto, na Esplanada dos Ministérios, nas duas casas do Congresso, no STF, na Advocacia da União ou no Ministério Público Federal; e menos ainda na (re)dita grande imprensa, o coronel foi perdulário nos detalhes dos horrores  a que os militares se entregavam na Casa da Morte, parte do hediondo complexo de torturas, assassinatos e desparecimentos de corpos  espalhado pelo país.

Era de se esperar, se este fosse um país com instâncias de poder minimamente respeitadoras de princípios comezinhos da civilização humana, se a sua assim chamada “elite” política, econômica, social e intelectual não fosse tão obtusa e mesquinha, era de se esperar que o coronel fosse imediatamente preso, interrogado, acareado e processado.

Mas não. O assassino confessa que torturou, esquartejou e ocultou corpos, crimes, que a malfada Lei da Anistia não cobre, e assim mesmo permanece fora do alcance da Polícia, do Ministério Público e da Justiça. Espontaneamente, sem qualquer tipo de pressão, o coronel confessou. No entanto, as autoridades a quem competisse o caso, omitem-se, lixam-se.

Não se trata de legalismo, de se prender ao que diz ou não a Lei de Anistia. Isso são detalhes.  O que conta, acima de qualquer lei, de toda lei, de qualquer regulamento,  de qualquer filigrana, o que importa é a clara, desabrida, arrogante confissão dos crimes.

“Eu fiz. Eu torturei. Eu matei. Eu esquartejei. Eu mutilei e ocultei os cadáveres. E não me arrependo de nada”.

Que país é esse que ouve a confissão desse Heydrich reencarnado e se cala?  Que país é esse que segue indiferente, rumo à Copa, rumo às eleições, rumo aos shoppings e às praias, como se entre nós não se revelasse um  monstro ameaçador?

Esse país, é o último país que vai libertar os negros da escravidão; esse país é o país que isola, indigita, persegue, mata, apeia do poder qualquer um que ouse torná-lo um milímetro menos desigual. Esse país é o país onde 5 mil clãs apoderam-se da metade da renda e da riqueza nacional, deixando que 200 milhões de pessoas  roam o osso do que sobra. Esse país é o país onde um por cento dos proprietários rurais detém 45 por cento de todas as terras. Nesse país, até o final do ano, morrerão assassinados 50 mil brasileiros, a  maioria negros e pobres; nesse país, até o final do ano,  morrerão 50 mil brasileiros no trânsito, a maioria, negros e pobres, atropelados entre o ir e vir ao trabalho.

Nesse país do coronel esquartejador, nenhum dos seis governantes civis que sucederam os generais-presidentes-ditadores teve coragem para exigir informações sobre torturas, assassinatos, desaparecimentos, esquartejamentos, mutilações de milhares de oponentes da ditadura.

Que futuro tem esse país?

(Em tempo e um tanto fora do eixo, só para não perder o incrível registro. No meio disso tudo eis que surge um Carlos Lacerda tardio, sem o estilo, a eloquência e a correta sintaxe do original, é verdade, mas ainda assim tão bufão quanto: encarapitado em seu apartamento de Higienópolis, como se estivesse pontificando do Guanabara, o ex-presidente diz que o clima,  hoje, entre a presidente  e o Congresso assemelha-se ao clima existente entre Jango e os parlamentares, às vésperas do golpe.  E ninguém proclama a nudeza do rei. Santo e misericordioso deus!)


José Benedito Pires Trindade e Otto Filgueiras são jornalistas. Otto está lançando o livroRevolucionários sem rosto: uma história da Ação Popular.

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